A Receita Federal encerrou 2025 sinalizando uma mudança relevante na sua estratégia de relacionamento com empresas. Em vez de atuar apenas de forma repressiva, o Fisco passou a investir em orientação preventiva, acompanhamento fiscal contínuo e estímulo à conformidade. Esse novo posicionamento ganhou forma com a criação do Programa de Proatividade do Atendimento, conhecido como Aproxime, instituído pela Portaria RFB nº 627/2025.
Nesse contexto, empresários, gestores financeiros, contadores e profissionais da área fiscal precisam entender que o Aproxime não representa apenas um novo canal de atendimento. Pelo contrário, ele sinaliza uma redefinição da lógica de compliance tributário no Brasil, especialmente em um ambiente marcado pela Reforma Tributária, pelo uso intensivo de dados e pela fiscalização cada vez mais integrada.
Como explicou a própria Receita Federal em nota oficial, o programa busca “oferecer atendimento especializado e promover a conformidade tributária”. Na prática, como observam analistas do setor, trata-se de uma tentativa clara de corrigir desvios antes da autuação formal, o que altera de forma significativa a dinâmica entre empresas e o Fisco.
O que é o Programa Aproxime da Receita Federal?
O Programa Aproxime consiste em um modelo de atendimento personalizado e preventivo, direcionado a empresas previamente selecionadas pela Receita Federal. Diferentemente da fiscalização tradicional, o foco recai sobre a identificação antecipada de inconsistências e sobre a orientação procedimental para correção voluntária.
De acordo com a Portaria RFB nº 627/2025, o programa envolve:
- definição criteriosa do público-alvo;
- comunicação direcionada e individualizada;
- atendimento especializado após adesão formal;
- parcerias institucionais;
- monitoramento contínuo da situação fiscal.
Entretanto, é fundamental destacar que as orientações prestadas no âmbito do Aproxime não produzem efeitos jurídicos vinculantes, como ocorre nas consultas formais previstas na legislação tributária. Portanto, apesar do caráter colaborativo, a empresa continua responsável por suas decisões fiscais.
Por que a Receita Federal lançou o Aproxime neste momento?
O surgimento do Aproxime não ocorre por acaso. Na verdade, ele se conecta diretamente a três movimentos estruturais que já transformam a atuação do Fisco.
Primeiro, a Receita ampliou de forma significativa o uso de cruzamentos eletrônicos e análise de dados em tempo quase real, o que permite identificar padrões de inconsistência com muito mais rapidez. Em segundo lugar, a Reforma Tributária do consumo, com IBS e CBS, exigirá níveis elevados de integração, padronização e conformidade a partir de 2026. Por fim, programas como o Receita Sintonia já classificam contribuintes com base no grau de regularidade, criando incentivos claros para boas práticas.
Segundo o secretário especial da Receita Federal, Robinson Barreirinhas, em comunicação institucional, o objetivo é “antecipar problemas dos contribuintes antes que eles comprometam a conformidade tributária”. Assim, o Fisco passa a atuar de forma mais seletiva: colaborativo com quem mantém padrões elevados de compliance e mais rigoroso com quem insiste em modelos reativos.
Quem pode ser selecionado para o Programa Aproxime?
A Receita Federal não abriu o Aproxime para adesão espontânea. Em vez disso, as Superintendências Regionais realizam a seleção das empresas, considerando a localização da matriz e critérios internos.
Podem ser selecionadas pessoas jurídicas que se enquadrem, por exemplo, em:
- contribuintes classificados como diferenciados;
- empresas enquadradas como A+ no programa Receita Sintonia;
- outros critérios definidos pela superintendência regional, desde que não se trate de contribuinte especial.
Na prática, como explicam consultores tributários, o programa se direciona a empresas com maior relevância econômica ou histórico consistente de conformidade, e não a contribuintes que acumulam irregularidades recorrentes.
A adesão ao Aproxime é obrigatória?
Não. Mesmo após a seleção, a adesão permanece facultativa.
O fluxo funciona da seguinte maneira: primeiro, a Receita Federal comunica formalmente a empresa selecionada. Em seguida, a empresa avalia os impactos e decide se deseja aderir. Caso opte pela adesão, deverá formalizar manifestação expressa e enviar informações por meio de processo digital específico, além de utilizar obrigatoriamente o Domicílio Tributário Eletrônico (DTE).
Somente após essa etapa o atendimento especializado se inicia. Por isso, especialistas recomendam análise prévia cuidadosa, já que a adesão amplia o nível de interação e acompanhamento fiscal.
Como funciona o atendimento no Programa Aproxime?
A Receita Federal prestará o atendimento por meio de servidores designados especificamente para essa finalidade. Além disso, utilizará canais próprios, que serão detalhados em atos complementares.
A Coordenação-Geral de Atendimento (Cogea) ficará responsável por padronizar procedimentos, definir normas operacionais e supervisionar as equipes regionais. Com isso, o programa tende a ganhar escala e maior uniformidade ao longo do tempo, reduzindo assimetrias regionais.
O Aproxime permite monitoramento antecipado da regularidade fiscal?
Sim, e esse ponto merece atenção especial. A Portaria prevê que a Receita possa realizar monitoramento prévio da situação fiscal para fins de emissão ou renovação da Certidão Negativa de Débitos (CND).
Na prática, antes de negar a certidão, o Fisco poderá identificar pendências, comunicar o contribuinte e permitir a regularização prévia. Isso reduz riscos operacionais para empresas que dependem da CND para contratos, financiamentos e licitações. Ao mesmo tempo, porém, amplia o grau de vigilância e exige respostas rápidas e bem fundamentadas.
Em quais situações a empresa pode ser excluída do programa?
A exclusão pode ocorrer em hipóteses como perda dos critérios de elegibilidade, descumprimento reiterado de obrigações ou solicitação da própria empresa. Nesses casos, a Receita deve comunicar a exclusão com antecedência mínima de 30 dias.
Além disso, a empresa poderá apresentar recurso administrativo no prazo de 10 dias, conforme prevê a Lei nº 9.784/1999. Esse ponto reforça que, embora colaborativo, o programa mantém estrutura formal e exige gestão ativa.
Quais são os riscos e oportunidades do Aproxime?
Sob a ótica estratégica, o Aproxime oferece oportunidades claras. Ele pode aumentar a previsibilidade fiscal, reduzir litígios e permitir correções antecipadas. Além disso, favorece empresas que já investem em governança e controle.
Por outro lado, o programa não funciona como salvo-conduto. A adesão implica maior transparência, acompanhamento contínuo e necessidade de resposta tempestiva às comunicações da Receita. Como alertam especialistas, ignorar orientações ou tratar o programa com informalidade pode ampliar riscos, e não reduzi-los.
O Aproxime redefine o papel do compliance tributário
O Programa Aproxime confirma uma tendência já evidente. A Receita Federal avança para um modelo mais analítico, preventivo e relacional, especialmente com empresas consideradas estratégicas ou bem avaliadas em conformidade.
Para organizações preparadas, o programa pode significar menos risco e mais previsibilidade. Por outro lado, para quem ainda trata compliance como reação a autuações, o Aproxime funciona como um alerta claro de que o ambiente fiscal brasileiro exige outro nível de organização.
Como resumem especialistas da área, o Fisco deixou claro com quem deseja se aproximar e em quais condições. Compreender essa mudança agora se tornou essencial para evitar surpresas nos próximos anos.



